Em tantos anos a provar vinhos em concursos, nunca me tinha acontecido. Cinquenta e oito vinhos em prova, dezasseis medalhas atribuídas e nem uma de Prata. Ou seja, foram atribuídas oito de Ouro e oito de Grande Ouro para os brancos e licorosos do concurso (no concurso só entram estes estilos de vinho), e nem uma medalha abaixo disso. Aconteceu no ‘I Concurso de Vinhos Certificados dos Açores’, realizado na ilha do Pico, e foi uma das boas notícias que trouxe na bagagem quando regressei ao continente, na segunda-feira. Quem participa nestas provas sabe que um resultado assim não é habitual. O regulamento previa também medalhas de Prata, mas nenhum dos vinhos distinguidos ficou nesse patamar. Numa região onde produzir vinho implica tantas dificuldades, conseguir que todas as medalhas atribuídas premeiem a sua enorme qualidade é um feito incrível! Tenho reduzido a participação nestas provas, porque o tempo não chega para tudo, concentrando-me num ou dois concursos nacionais e, a nível internacional, no Concours Mondial de Bruxelles, de onde regresso sempre com descobertas interessantes. Mas continuo a aceitar outros convites sempre que encontro uma razão muito válida para estar presente. Neste caso, foi ter sido uma iniciativa do novo Instituto da Vinha e do Vinho dos Açores, que assumiu as competências da anterior Comissão Vitivinícola Regional e cujo presidente e equipa demonstram vontade de fazer cada vez mais e melhor nas ilhas. O júri, habituado a avaliar vinhos de diferentes origens, despachou numa manhã os brancos e licorosos em prova (é nestes vinhos que os Açores têm hoje os seus argumentos mais fortes, enquanto os tintos e outros estilos têm ainda caminho a percorrer). A Adega do Vulcão esteve em grande, sendo a grande vencedora em três categorias, a de ‘Melhor Verdelho’ (com o seu Adega do Vulcão Verdelho 2023) a de ‘Melhor Arinto dos Açores’ (com o seu Pé do Monte Arinto dos Açores 2020), tendo este último vinho vencido também na categoria de ‘Melhor Vinho do Concurso’, ou seja, o melhor dos melhores. Três distinções que mostram a consistência do trabalho deste produtor. Numa região onde os brancos monocasta costumam concentrar as atenções, os vinhos de lote também tiveram uma palavra a dizer. A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico conquistou o prémio de ‘Melhor Vinho Branco’ com o Terras de Lava 2025, e venceu ainda na categoria de ‘Melhor Licoroso’, com o Ilha do Pico 10 Anos. Finalmente, o prémio de ‘Melhor Terrantez do Pico’ foi atribuído ao Entre Pedras Terrantez do Pico 2025, do produtor Entre Pedras. No final, já sabendo as pontuações e as marcas provadas às cegas, soubemos que apesar de ter havido vencedores repetidos, as pontuações foram renhidas nas diversas categorias, com diferenças muito curtas entre os primeiros lugares. Mas, sem dúvida, mais revelador do que qualquer vitória individual foi o facto de em diferentes categorias, todas as distinções terem ficado nos patamares superiores previstos no regulamento. Não acontece todos os dias e diz bastante sobre os vinhos que ali provámos. Aproveitando o embalo, esta viagem levou-me também a participar no ‘I Fórum da Vitivinicultura Açoriana’, que decorreu nos dois dias anteriores ao concurso, onde falei sobre o ‘Enoturismo como Motor de Desenvolvimento Regional’. Reencontrei um sector que mudou nos últimos anos, com produtores de longa ligação à vinha a modernizarem a forma de trabalhar e novos projectos a trazerem outras ideias. Esse movimento sente-se sobretudo no Pico, na Terceira e na Graciosa, mas começa também a despertar atenção em Santa Maria e até em São Miguel. Com esta qualidade no copo, há condições para receber melhor quem quer conhecer os vinhos na origem. Falta, em muitos casos, estruturar a oferta e preparar as equipas para conduzirem uma prova e adaptarem a conversa a quem têm à frente. Uma reserva precisa de resposta e a visita tem de corresponder ao anunciado. Depois, há que saber comunicar, porque de pouco serve ter um bom produto ou
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