As folhas caídas

Fuente: SAPO 2025 SAPO · sociedad · Portugal, Portugal

As folhas caídas

Acordei assim, caída no chão, no meio da rua. Perdi-me da minha árvore, deixei de ter casa, já não sei onde estou nem para onde vou. Assusto-me quando passam à volta, quase a pisar-me. Por vezes vem uma rabanada de vento e atira-me pelo ar, até aterrar mais à frente. O meu maior medo é ser levada para o meio da estrada e pisada pelos carros que me vão partindo aos bocadinhos. Também não gosto de cair dentro de uma poça de água. Quando isso acontece, sinto que começo a desfazer-me. A árvore que era a minha casa continua no mesmo sítio, as suas folhas é que vão mudando. Ela livra-se de nós, vai-se despindo à maneira que caímos. Nunca percebi bem se somos nós que partimos ou a árvore que se livra de nós, não quero pensar nisso agora, o mundo já está muito complicado. Nós, as folhas, somos como os passarinhos que chegam e partem em determinadas alturas do ano. Temos vidas curtas; a bem dizer, a primavera é a nossa adolescência e o outono a nossa velhice. Vamos mudando de cor, de um verde radioso aos acastanhados do fim de vida. Dependemos das árvores, todos os anos renascem com novas roupagens. O nosso brilho esvai-se depressa, o das árvores renova-se todos os anos até alguém as abater. Eu gostava de estar mais tempo com a minha árvore e gosto de pensar que ela também me queria ter consigo. Por estes dias vou andar, aos trambolhões. Talvez alguém me pegue e leve para casa, para servir de marcador de um livro. Esse é o sonho de todas as folhas caídas, sabiam? Estratégias de comunicação// Manuel Falcão escreve sempre à sexta-feira no SAPO Diz ao Google que o SAPO é uma das tuas fontes de informação preferidas. Assim, nas tuas pesquisas Google, encontras conteúdos SAPO. Saber mais

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