Advogado, eurodeputado pelo PS e membro da Comissão de Defesa do Parlamento Europeu Não há outra forma de o descrever. A derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares desta semana é uma hecatombe para o presidente norte-americano e pode anunciar a decadência do movimento MAGA. Mas mais importante do que a queda é preparar o caminho para o futuro. Lá e cá. O Partido Republicano perdeu a Câmara dos Representantes e o Senado, incluindo em bastiões como o Texas e a Carolina do Sul. Trump fica assim perante uma rejeição que vai além do desgaste habitual das eleições intercalares. O recuo foi tão grande que nem o redesenho dos círculos eleitorais à medida dos interesses republicanos o conseguiu conter. Isso põe em causa a força política do presidente e torna mais incerta a sucessão num partido moldado à sua imagem. A guerra no Irão terá pesado decisivamente no voto de quem ouviu promessas de paz e de descida dos preços e acabou confrontado com uma vida mais cara. Os iranianos sofrem as consequências humanas da destruição. Ao mesmo tempo, a subida dos preços dos combustíveis e dos bens essenciais fez chegar às famílias americanas, e também às europeias, o custo de uma intervenção desnecessária, prolongada sem uma saída política ou militar credível. A derrota ameaça também as ambições presidenciais de JD Vance e Marco Rubio para 2028. Estão tão comprometidos com esta Administração que dificilmente poderão apresentar-se como uma renovação. Vance já atribuiu o resultado à guerra, e Rubio esteve entre os seus principais defensores. Ambos ficam expostos às consequências das escolhas que fizeram. O Partido Republicano terá de encontrar forma de se libertar de Trump sem perder o eleitorado que ele mobilizou. E terá de o fazer depois de anos a afastar dissidentes e a fazer da lealdade ao chefe a sua principal referência política. Trump aceitou o resultado, mas fez questão de lembrar o seu poder de veto, o que mostra com que disposição vai enfrentar a nova maioria. O Congresso poderá fiscalizar a Administração e travar parte da sua agenda. Mas o presidente conservará amplos poderes na política externa e no comando militar, o que aconselha prudência a quem já lhe prepara o funeral político. A imagem de um homem ferido, tentado a recuperar no exterior a autoridade que perdeu nas urnas, lembra o capitão Ahab, de Moby Dick , e a obsessão que acabou por afundar o navio que comandava. O que Trump ainda pode fazer deve, por isso, preocupar sobretudo a comunidade internacional. Internamente, estará mais limitado pelo sistema de checks and balances . Na agenda internacional, porém, mantém amplos poderes e uma capacidade de fazer estragos que não é de desprezar. Mas esta derrota é também a derrota dos seus correligionários na Europa e no mundo, e de todos quantos inspirou com o seu movimento MAGA. Vários deles, de Orbán, na Hungria, a Bolsonaro, no Brasil, ou Netanyahu, em Israel, têm perdido a confiança dos eleitores. Na Europa, quem apresentou as cedências tarifárias como êxitos diplomáticos e a estratégia de "apaziguamento" como uma conquista tem também de refletir. Isso inclui Portugal, onde o Governo autorizou, em condições duvidosas, a utilização das Lajes no contexto da guerra no Irão. Por isso, é altura de a Europa se preparar, como fizeram os democratas nos EUA, para construir soluções que deem resposta às preocupações legítimas dos cidadãos e para reduzir a sua dependência das decisões de Washington. A mudança de maioria no Congresso abre espaço para contrariar Trump. O tempo que lhe resta na Presidência exige dos aliados dos EUA uma autonomia que, demasiadas vezes, lhes tem faltado.
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