Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras No princípio desta semana, num Cine Teatro esgotado, dezenas de alunos das escolas secundárias de Torres Vedras assistiram ao colóquio que a Caixa Agrícola coorganizou sobre a figura e a obra de Agostinho da Silva. Difícil encontrar palavras para definir o orgulho que senti por ver adolescentes seguirem, sem telemóveis e com toda a atenção, o que se disse acerca da necessidade nos reencontrarmos com a inquietação. Não há futuro possível sem o motor do tumulto nos mais jovens. Acredito que a maioria de nós acredita nessa premissa. Tenho assistido com curiosidade e preocupação às sucessivas “acampadas” em Lisboa e no Porto. Não pretendo esgrimir argumentos da justeza ou excesso das cargas policiais – dezenas de analistas o fizeram –, mas não posso deixar de escrever a partir de uma outra premissa sobre a qual é igualmente impossível não concordarmos: a habitação é um problema que precisa de começar a ser resolvido, vou até mais longe, é o tema mais importante entre todos os que podem ser atenuados nos seus perversos efeitos pelo Governo Português desta legislatura e os próximos. O primeiro-ministro falou ao país. Prometeu futuros alinhamentos entre os maiores partidos, investimento e novidades para os próximos dias. Muito bem, veremos o que acontece neste teste ao regime e ao papel que António José Seguro conseguirá desempenhar para desbloquear o impasse. Há uma palavra que será mais necessária do que nunca para começar a executar a reforma que o país precisa que seja feita. A palavra é “Coragem”. Existirá coragem para resolver o problema da habitação? Para uma mudança efetiva e transversal? Sem alterar o Plano Diretor Municipal e as limitações da Rede Nacional de Áreas Protegidas e dos seus demasiado exigentes planos de ordenamento? Como compatibilizar a defesa do ambiente (fundamental) com a necessidade de construir mais casas? E a regionalização poderá voltar à agenda política? Será necessária para que as autarquias possam reforçar o seu poder e a sua responsabilidade? Como aqui já escrevi, há quase um ano, as autarquias podem e devem vender terrenos a empresas de construção definindo regras e tendo, como é lógico, controlo sobre o preço final – limitando a especulação e a corrupção. Eis um tema fundamental para a nova Associação Nacional de Municípios. Existirá a coragem para mexer no IVA? Diferenciar os que compram para construir e vender dos que o fazem para habitar? Se as casas são a primeira das necessidades, é possível continuarmos a ter pessoas que têm 20 e 30 casas? Em que momento se discutirão novas parcerias financeiras? Como presidente de uma instituição financeira cooperativa estou disponível para estar do lado da solução; as cooperativas, muito mais próximas das populações, podem e devem dar um passo em frente. Não falo por ninguém, mas acredito que essa colaboração vai ao encontro do nosso desígnio, da nossa fortíssima identidade. Existirá a coragem para alocar verbas do dinheiro gerado pelas aplicações do Fundo de Estabilização Financeira? E o preço dos materiais não deveria e poderia ser mais baixo? Qual a razão para usarmos materiais tão caros? Para continuarmos a usar pedra quando há alternativas mais económicas? E para quando mais e melhores medidas para potenciar o interior e permitir um crescimento da população mais sustentado e uniforme? Não é apenas a sobrevivência do Governo que está em causa, mas a do próprio sistema, da democracia como a conhecemos. Uma casa não pode continuar a custar três vezes mais do que o preço de custo. O Estado precisa de estar do lado da solução e não da especulação. Haverá coragem para dar o exemplo sabendo que o Estado é detentor de largas centenas de propriedades e terrenos? Para colocar no mercado uma parte dos terrenos e propriedades de norte a sul que pertencem às Forças Armadas, o maior proprietário em Portugal ? Como alguém afirmou, os corajosos e os cobardes não se definem pela ausência de medo, mas pela
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