Há um ano a marcha da extrema-direita parecia irresistível. A direita tradicional adaptava-se-lhe, os grandes interesses económicos festejavam e uma verdadeira tropa de comentadores anunciava uma esquerda condenada à irrelevância. Acontece que as pessoas, o inestimável povo que tanto nos embaraça com as suas aposturas misteriosas, está, outra vez, a reescrever essa história. Em vários países começam a multiplicar-se mudanças políticas que pareciam impossíveis. Como se sabe, em Portugal o pacote laboral do Governo caiu em junho, depois de meses de contestação sindical, de duas greves gerais e apesar de uma maioria de dois terços à direita no Parlamento quase garantir, à partida, a passagem do diploma. O Chega, porém, assustado com a contestação popular acabou por votar contra, em cálculo próprio. O papel da mobilização dos trabalhadores na derrota de uma reforma apresentada como inevitável foi surpreendente e crucial. Agora, nas ruas, as “acampadas” pela habitação, enfrentadas com cargas policiais e detenções, conseguiram impor o tema na agenda nacional. O Governo, pressionado pelo Presidente da República que, por sua vez, foi pressionado pelo que se passava nas ruas, passou a oferecer diálogo quando antes só via um problema de ordem pública. Ainda não é uma vitória sobre a crise da habitação, mas é a demonstração de que resistir pode obrigar o poder a mudar de posição. No Brasil, Lula fez aquilo que nunca sucedera numa segunda volta presidencial: recuperou da desvantagem da primeira e derrotou Flávio Bolsonaro, com 51,79% dos votos. A vitória foi impulsionada por multidões nas ruas, pela participação dos jovens e por uma enorme mobilização popular nas redes sociais. Nos Estados Unidos, Donald Trump sofreu uma enorme derrota nas intercalares: os democratas conquistaram as duas câmaras do Congresso. Pelo menos cinco socialistas democráticos foram eleitos para a Câmara dos Representantes e Abdul El-Sayed, defensor de um serviço de saúde universal (o que nos Estados Unidos é quase tão escandaloso como defender o comunismo), ganhou um lugar no Senado. Há cada vez mais políticos bem-sucedidos nos EUA que apresentam uma alternativa à desmesurada concentração da riqueza e do poder depois de em Nova Iorque, em 2025, o socialista Zohran Mamdani ter sido eleito para presidente da Câmara, numa campanha com mais de cem mil voluntários. Também na Irlanda, Catherine Connolly chegou à Presidência apoiada por uma frente de partidos de esquerda e por uma vasta rede de ativistas. Em Berlim, o Die Linke, que há dois anos surgia nas sondagens com 6%, tornou-se o partido mais votado, com 25,7%. Fez campanha porta a porta contra rendas incomportáveis e o poder dos fundos imobiliários. Os berlinenses apoiaram. Seria ingénuo anunciar o fim da extrema-direita ou das suas alianças com o centro-direita. Ela conserva votos, dinheiro, influência mediática e posições de poder. E há muita gente que vota sobretudo em rejeição contra quem está no poder. Mas talvez esteja aí a lição. Quando a oposição abandona o medo, organiza a indignação em torno de coisas concretas como salários, casas, saúde, direitos, liberdade, e chama as pessoas a participarem, consegue reunir maiorias que os especialistas julgavam impossíveis. O ascenso da extrema-direita no mundo está a ter uma resposta política que há um ano poucos poderiam prever. E a extrema-direita, que julgava ter a vida facilitada, está, neste momento, perplexa.
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