Washington aqui tão perto

Fuente: Diario de Noticias (Portugal) · sociedad · Portugal, Portugal

Washington aqui tão perto

Jon Stewart anda desesperado com a irresponsabilidade institucional de Donald Trump. Enfim, não é uma questão que tenha surgido por causa das eleições intercalares nos EUA. O certo é que se tornou especialmente dramática na véspera desse ato eleitoral quando Trump achou por bem fazer o tradicional discurso de mobilização do presidente dos EUA no Espelho de Água de Washington, numa zona em que coabitam vários monumentos de grande relevância simbólica, incluindo o Lincoln Memorial e o obelisco dedicado a George Washington. No seu programa The Daily Show (RTP2), Stewart mostrou a bizarra cerimónia em que Trump elogiou os trabalhos executados no Espelho de Água, sublinhando em particular que se tinha finalmente anulado o “mau cheiro” das algas. A intervenção política não foi além disso, levando Stewart a esclarecer que não estávamos a ver uma cena gerada por Inteligência Artificial, “nem qualquer tipo de inteligência”. Nada disso: “Isto foi o presidente dos EUA, na véspera das eleições intercalares, optando por fazer um discurso no Espelho de Água... para falar sobre o Espelho de Água.” Com que mensagem? “Nenhum simbolismo, nenhuma metáfora, apenas manutenção de piscinas.” As eleições levaram Stewart a observar a avalanche de sondagens citadas por vários canais, sempre acompanhadas por diligentes analistas a anunciar grandes fenómenos eleitorais a partir das percentagens que vão surgindo nos ecrãs. Até que, subitamente, tudo isso passa a coexistir com algo “ligeiramente” diferente. Dir-se-ia que, para voltar a agitar os ecrãs, há um assombramento que começa a circular: “E se as sondagens estiverem erradas?” A comédia desenvolve-se, assim, lado a lado com a mais contundente seriedade. Ao mesmo tempo que identifica no ecrã alguns canais (incluindo a Fox News e a CNN) que se prestam a gerar agitação pela agitação, Stewart acrescenta: “É o que eles fazem, é o joguinho dos media . Aproveitam-se das nossas emoções, como se fossemos ratinhos num labirinto, à procura de uma dose de dopamina.” Tudo através de um aparato de encenação cada vez mais espalhafatoso e menos informativo, “lançando os números das sondagens em ecrãs cada vez maiores”. Até que, “na calma da noite, quando os media ficam cansados de brincar com o desastre emocional da sua audiência”, esses mesmo media avançam com uma nova medicina, ou seja, a dissolução de todas as suas responsabilidades. Depois da gritaria em torno das sondagens, surge uma nova proclamação: talvez seja melhor não dar muita atenção às sondagens!... De tal modo que Stewart, ainda mais desesperado, pergunta por que é que, afinal, “nos estão sempre a mostrar sondagens” – entretanto, num cantinho de um dos ecrãs, ele descobre mesmo que há uma sondagem em que um valor de 22% é acompanhado pela informação de que a margem de erro desse valor será de “mais ou menos 11%”. Em resumo, Jon Stewart apresenta-nos 25 minutos da mais depurada reflexão crítica, acabando por se dirigir diretamente aos protagonistas televisivos, propondo um outro tipo de análise: “As notícias deviam acalmar os nossos nervos com informação em contexto, não amplificando essa informação com especulação que vocês próprios admitem que tem pouco valor.” Registemos, por isso, a mensagem que chega de Washington: fazer televisão não é o mesmo que promover uma lavagem mental que seja “corrosiva para o bem-estar dos espectadores”.

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