Setenta venenos num só dia: a lenda de Shennong

Fuente: dn · cultura · nacional, España

Setenta venenos num só dia: a lenda de Shennong

Textos chineses com mais de dois mil anos contam a lenda de Shennong, um chefe tribal que, para proteger o seu povo, terá provado pessoalmente toda a espécie de plantas desconhecidas, num episódio que ficou conhecido como “Shennong prova as cem ervas”. Aqui, “cem” não é um número exato, antes designando uma grande variedade de plantas. Essa aprendizagem teve, porém, um preço terrível. Naquele tempo, as pessoas procuravam alimento nas florestas e nos campos, mas muitas morriam por ingerirem plantas venenosas. Shennong não queria continuar a ver o seu povo morrer assim, pelo que, durante o dia, colhia plantas e levava-as à boca; à noite, junto à fogueira, recordava as ervas e os arbustos que experimentara, procurando distinguir o que se podia comer e o que podia aliviar dores e doenças. Depois, ensinava aos outros o que aprendera. Porém, a sua busca não se limitava às plantas medicinais. Também provava a água das nascentes para avaliar se o seu sabor era doce ou amargo. Saber o que comer e de onde beber era o conhecimento mais elementar de que dependia a sobrevivência. O perigo acompanhava-o a cada passo. Segundo a lenda, no seu episódio mais perigoso, chegou a sofrer os efeitos de 70 venenos num só dia. “70” é uma hipérbole literária, não uma contagem rigorosa, mas é inevitável imaginar Shennong percorrendo terras desconhecidas, caindo por terra vencido pela dor e, mal recupera as forças, voltando a cair ao provar a planta seguinte. Conta-se também que mastigava folhas de chá para neutralizar os venenos. Foi assim que, segundo a lenda, o chá entrou na vida dos chineses. Mas nem o chá podia neutralizar todos os venenos: uma erva extremamente venenosa acabaria por lhe causar a morte. A história não descreve em pormenor os seus envenenamentos. Deixa-nos sobretudo aquele “70”, símbolo de inúmeras experiências no limiar entre a vida e a morte. Cada queda trazia uma lição de sobrevivência, permitindo às gerações seguintes evitar alguns perigos mortais. Nos mitos dos primeiros tempos da Humanidade, não faltam pioneiros que se sacrificam pelos outros. Na Grécia Antiga, Prometeu trouxe o fogo aos homens e sofreu, por isso, tormentos sem fim. Separadas por milhares de quilómetros, as duas narrativas exprimem uma ideia comum: o saber necessário à sobrevivência não surge do nada; há sempre alguém que paga o preço da descoberta. Mas os protagonistas encontram respostas de formas diferentes. Prometeu traz do céu o fogo que os deuses já possuíam; Shennong nada tem de pronto à mão, colhendo plantas silvestres e testando-as no próprio corpo para descobrir o que podem fazer. No seu caso, o conhecimento vai sendo construído com cada tentativa, com cada sofrimento e com cada perigo ultrapassado. Um dos mais antigos tratados chineses sobre substâncias medicinais leva o seu nome: o Shennong Bencao Jing , ou Clássico da Matéria Médica de Shennong . Não foi escrito por ele, mas ao atribuírem-lhe a obra, gerações posteriores associaram as origens do seu saber medicinal a este pioneiro mítico. Não chegou até nós uma lista das plantas que terá provado, mas o espírito de investigação que a lenda lhe atribui atravessou os séculos. No século XVI, o médico Li Shizhen, da Dinastia Ming, percorreu montanhas e experimentou pessoalmente diversas ervas para verificar as suas propriedades medicinais. Dedicou toda a sua vida à elaboração do Bencao Gangmu , o Compêndio de Matéria Médica , uma obra monumental que reuniu e sistematizou o saber acumulado pela China Antiga sobre as substâncias usadas para tratar doenças. Há algumas décadas, a cientista Tu Youyou e a sua equipa percorreram antigos livros de Medicina à procura de pistas que lhes permitissem combater a malária. Conseguiram extrair da Artemisia annua , conhecida em chinês como qinghao, a artemisinina. Para avaliar a segurança dos extratos, os próprios investigadores chegaram a experimentá-los em si. Os tratamentos resultantes desta descoberta salvaram milhões de vidas em todo o mundo e valeram a Tu Youyou o

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