Reflexão sobre as memórias de infância, a importância dos sons nos edifícios habitados e o significado emocional de abandonar a primeira casa. A narrativa parte do apreço pelo barulho quotidiano dos prédios, visto como o primeiro indicador genuíno de vida e movimento à nossa volta, em contraste com o silêncio isolado de vivências passadas. Recorda-se a casa da infância, um espaço marcante para onde sempre existiu o desejo de regressar, onde o chão alcatifado ao estilo dos anos setenta abafava os sons e impedia que se ouvissem os vizinhos. Esse detalhe arquitetónico e decorativo da época acaba por ser responsabilizado por um hábito enraizado na autora: o gosto por caminhar descalça dentro de portas, mesmo quando a temperatura do pavimento se assemelha a uma pista de patinagem. Aborda-se também o momento difícil da partida, quando foi necessário deixar essa primeira habitação, um processo marcado por incompreensões familiares em torno da higiene e que funcionou como uma imposição abrupta para o crescimento pessoal. A crónica evoca a nostalgia dos espaços vividos e a forma como os pequenos detalhes materiais moldam a nossa identidade e as nossas recordações ao longo do tempo. Fuente: SÁBADO
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